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Escalde o Plantão

24 de Fevereiro de 2015, 21:17 , por Desconhecido - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
O “Escalde o Plantão” é o espaço onde vocês terão a possibilidade de publicar matérias próprias, denúncias, divulgações de trabalhos libertários e autogeridos ou resistências populares e autônomas, desde que possuam relação com os objetivos do Café Preto e os nossos princípios! Também aceitaremos críticas, construtivas e destrutivas, sugestões ou dicas para o crescimento do próprio jornal. Qualquer dúvida, sugerimos a leitura do texto “Quem Somos”. Como construímos um veículo anarquista de informações, carregamos certos preceitos inegociáveis, como o a liberdade, apoio mútuo, solidariedade e a autonomia. Desta forma, possuiremos uma política editorial para análise dos textos do “Escalde o Plantão”, onde mensagens de cunho racista, machista, homofóbico, xenófobo, partidário, empresarial, religioso ou de qualquer viés autoritário ou opressor não serão publicadas. Ofensas e injúrias pessoais desconexas com os objetivos do Café Preto também não serão publicadas. Longe de estarmos instaurando uma censura no jornal, esta política editorial representa um cuidado com os nossos leitores e membros do Café Preto, que fielmente nos acompanha na expectativa de que sigamos firmes em nossos princípios libertários! Quaisquer vetos a publicações no “Escalde o Plantão” serão comunicados a suas/seus responsáveis com a respectiva justificativa, a fim de propiciar um melhor entendimento e diálogo entre as partes. Portanto, sentem-se, tomem um cafezinho preto, pelando e sem açúcar... e sintam fervilhar os seus corações, aquecer os seus neurônios, aguçar o sangue nos olhos e fortalecer o poder da sua voz! Escaldem tudo no plantão!!! Envie-nos seu material: contato@cafe-preto.org ;)

Nem criadas, nem mucamas. Trabalhadoras em luta!

3 meses, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

Por: Lika de Campos

 

Ama.gifO trabalho doméstico é uma das ocupações mais antigas da história do  Brasil e é praticamente impossível desvinculá-lo da  história da escravidão no país. Até o fim da escravidão, em 1888, esse era um trabalho realizado majoritariamente por escravas ou trabalhadoras livres e libertas pobres. Em Salvador, onde 2/3 da população foi considerada preta ou parda em 1872, o serviço doméstico era um trabalho majoritariamente negro e feminino. Apesar dos mais de cem anos que nos separam do fim da escravidão, muitas heranças persistem nas relações de trabalho e na forma como a sociedade enxerga estas trabalhadoras. Na realidade, a própria aceitação do trabalho doméstico como parte do mundo do trabalho sempre foi bastante problemática, tanto pelo Estado quanto pela sociedade.

No Império, a Constituição de 1824 impedia expressamente que os trabalhadores domésticos votassem e o Código Comercial de 1850 – legislação relativa a contratos de trabalho – não incluía as domésticas em suas determinações. Mesmo com o fim da escravidão e o início do período republicano as trabalhadoras domésticas continuaram sendo entendidas como uma categoria distinta dos demais trabalhadores: sua exclusão da CLT de 1943 e mesmo do parágrafo único na Constituição de 1988 – que excluía as domésticas de uma série de direitos trabalhistas – são prova disso.

E a precariedade das condições destas trabalhadoras não se restringem apenas às leis. As relações de trabalho entre patrões e empregadas são em sua maioria marcadas por subserviência e autoritarismo, muitas vezes disfarçados por uma relação afetiva: não é incomum ouvir de empregadores opressores que a empregada doméstica é “praticamente da família”. Em geral, as domésticas possuem espaços distintos para realizar suas refeições e não utilizam os mesmos sanitários dos empregadores; muitas casas de elite ou classe média ainda possuem as “dependências”, cubículos muitas vezes insalubres, escuros e pouco ventilados reservados ao uso das empregadas.

Muitas relações de trabalho ainda são pouco claras sobre quais tarefas a empregada deve exercer, o que acaba por muitas vezes sobrecarregá-la com diversas tarefas. Apesar de terem direito a dia de folga, o trabalho acumulado como louça, roupa ou casa suja nos dias de descanso acabam virando trabalho extra no dia seguinte. Ou seja, no fundo muitas empregadas acabam trabalhando dobrado na segunda-feira após a folga do fim de semana e isso não é considerado como carga de trabalho extra.

Boa Esperança - Emicida

Isso quando a precariedade não diz respeito também as condições de liberdade e assalariamento: os direitos trabalhistas conquistados pelas trabalhadoras ao longo dos séculos nem sempre são respeitados e assegurados. Trabalho infantil, mal pago ou não remunerado ainda fazem parte da realidade de algumas trabalhadoras domésticas no Brasil.

Apesar de todas as características que nos reportam a nossa herança escravista, seria errado dizer que nada mudou ao longo dos séculos. Já como ponto de partida, o próprio conceito de trabalho doméstico passou por transformações. No século XIX, esta era uma categoria que abrangia não só trabalhos relativos à limpeza em residências como também em estabelecimentos comerciais: assim, o trabalho em hotelarias, por exemplo, era incluído na alçada doméstica. Ou seja, se relacionava a natureza da atividade e não ao espaço em que ela era exercida. Outra questão diz respeito ao tipo de atividades que eram exercidas nas residências. Até o fim do século XIX e início do XX, muitas atividades que hoje são exercidas por companhias públicas e privadas não eram oferecidas até então. Devido à falta de estrutura urbana, cabia às trabalhadoras domésticas as tarefas de lavar roupas na mão, engomar, cuidar dos aparatos de iluminação, cozinhar sem fogão a gás, despejar dejetos, etc.

Outra diferença crucial diz respeito à organização destas trabalhadoras que não contavam com sindicatos nem outras organizações trabalhistas que defendessem coletivamente seus direitos. É verdade que os sindicatos das trabalhadoras domésticas ainda contam com menor número de filiados que outras categorias de trabalho, mas ainda assim foram fundamentais na conquista dos recentes direitos trabalhistas adquiridos. E a existência dos sindicatos também não exclui a organização de outras redes de sociabilidade e apoio: trabalhadoras que fazem o mesmo percurso de ônibus para o trabalho, ou que trabalham na mesma casa ou próximo a outras empregadas domésticas compartilham experiências e identidades comuns que são fundamentais na luta cotidiana por empoderamento e melhores condições de vida e trabalho.

Ama de Leite carregando um bebê branco - Bahia, 1870Por fim, é preciso admitir as importantes transformações ocorridas no campo dos direitos trabalhistas das domésticas. Ainda que entre as leis e a prática cotidiana haja sempre uma distância, não podemos negar a importância dessas conquistas, sobretudo após a aprovação da Emenda Constitucional 72 (mais conhecida como PEC das domésticas) que excluiu o parágrafo único que as diferenciava dos demais trabalhadores e a Lei Complementar 150 de 2015 que regulamentou essas mudanças.

As discussões políticas a respeito dos direitos das trabalhadoras domésticas repercutem em diversos outros campos: o interesse pelo tema no âmbito acadêmico vem aumentando nas últimas décadas, dando visibilidade a setores antes excluídos da história. Também vem ganhando mais centralidade no campo das produções artísticas – duas produções cinematográficas ganharam destaque no cenário nacional: o documentário Domésticas – o filme (2001) de Fernando Meireles e o filme Que horas ela volta? (2015) de Anna Muylaert.

Mas se o cenário parece promissor em relação a conquista de direitos por parte das trabalhadoras domésticas, não podemos esquecer que elas foram fruto de muitos séculos de luta. A luta pela transformação das relações de trabalho não pode parar por aí: ainda há muito a ser feito para melhorar as condições de desigualdade no Brasil, sobretudo no que diz respeito às condições de vida e trabalho das empregadas domésticas. E nenhuma conquista está imune a tentativas de retrocesso: a história não caminha apenas em uma direção.

Mural-domestica



Carne Fraca, Campesinato, #ForaTemer e #SalvemAsBaleias - dissolvendo dicotomias

3 meses, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

Opera-18A mídia tem explorado exaustivamente o escândalo da Operação CARNE FRACA, deflagrada pela Polícia Federal. Neste grande esquemão, servidores do Ministério da Agricultura recebiam propina para fazer vistas grossas à venda de carne fora dos padrões exigidos para comercialização, como adulteração no peso por adição de água, a venda de produtos estragados disfarçadas com substâncias químicas e o reaproveitamento de carnes podres há mais de três meses para a produção de embutidos, como salsichas, hambúrgueres e linguiças. Houve até um lote de toneladas, contaminado com bactérias Salmonella que foi devolvido pela Itália e, quando de volta ao Brasil, virou motivo de debate entre os funcionários dos frigoríficos, que buscavam a melhor forma de reaproveita-lo no mercado nacional.

Na Carne Fraca, frigoríficos muitos bem conhecidos da população brasileira foram investigados, como os das empresas BRF- Brasil Foods S.A. (proprietária das marcas Perdigão e Sadia) e a gigante JBS S/A (proprietária da Friboi, Seara e Swift). A relação corrupta entre a indústria da carne e o Ministério da Agricultura não é de se espantar, basta lembrar que a JBS S./A. foi, em 2014, a maior doadora de financiamento para as campanhas eleitorais dos maiores partidos (PT, PSDB, PMDB etc.): 253 milhões de reais (dados do TSE, acesse aqui)! Somos tão acostumados a ouvir as palavras milhões e bilhões em esquemas de corrupção, que acabamos perdendo a noção do quanto isto representa. Para ter ideia, com este recurso doado só pela JBS S./A. para financiar campanhas partidárias e te enrolar por um voto, compraríamos 30 quilos de feijão para cada uma das quase um milhão de famílias de Salvador.

É importante demonstrar o poder econômico que possui a indústria da carne/pecuária no Brasil. Esta indústria movimenta no país cerca de 7 bilhões por ano e exporta carne para mais de 150 países, sendo o Brasil o maior exportador mundial de carnes com o maior rebanho bovino do mundo. Segundo relatório da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC, acesse aqui), o país abateu mais de 24 milhões de bois e exportou cerca de um milhão e meio de toneladas de carne bovina só em 2016. Não é à toa que depois do escândalo da Carne Fraca, o governo tem concentrado muito mais esforços em não queimar o próprio filme com os outros países compradores da carne nacional do que investigar se houve problemas de saúde relacionados ao consumo de carnes estragadas, por exemplo. Basta ouvir meia hora do programa Voz do Brasil no seu radinho de pilha que não demorará a perceber o que estou falando. Mas prepare o estômago para engolir informação estragada!

O poder político da indústria da carne/pecuária também é assustador. Para bater o financiamento privado de campanhas feito somente pela JBS S/A, precisamos juntar o montante de dinheiro doado por todas as grandes empreiteiras/construtoras investigadas na Operação Lava-Jato (OAS, Queiroz Galvão, Odebrecht, UTC Engenharia e Camargo Correia), que doaram juntas cerca de 270 milhões de reais (dados do TSE, acesse aqui). A JBS S./A. foi, por exemplo, a maior financiadora de 21 dos 28 partidos políticos com representação na Câmara dos Deputados Federais, com maiores volumes de doação para o PT, PMDB e PSDB!

Mas qual o interesse dessas grandes empresas em financiar campanhas eleitorais? Isso é fácil de deduzir. Imagine que você é gerente de um grande negócio. Você doa rios de dinheiro para todos os partidos políticos que suspeita ter chances de ganhar as eleições. Você pouco se importa se está financiando partidos que até se dizem rivais, como o PT e o PSDB. O que interessa para você é garantir que os partidos eleitos tenham sido financiados por sua empresa. Ao final da eleição, se foi a sua empresa quem financiou o/a presidente (e o vice!) do país e também a maioria dos deputados federais e os demais cargos eleitos, você terá ao final da eleição toda a máquina do Estado em suas mãos. Você ganhará a maioria das grandes licitações públicas superfaturadas, estará inserido nos maiores esquemas rentáveis de corrupção e lavagem de dinheiro, terá todas as legislações necessárias ao seu lucro aprovadas, todas as estruturas executivas que possam barrar o seu caminho serão sucateadas (veja sobre a tentativa de extinção da CGPEG do IBAMA/RJ aqui e participe do abaixo assinado), todas as licenças ambientais (im)possíveis serão emitidas e por aí vai...

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E quem não aceita financiamento privado vira café com leite na brincadeira,  jamais vencerá coisa alguma e ficará brincando de PSol no playground, tomando Ninho Soleil (tem de maçã e de banana) e soltando nota na internet. O PSol, aliás, já andou recebendo para a campanha de Luciana Genro uma "doação" da empresa Taurus, fabricante das pistolas 380, .40 e2013125_37833 metralhadoras, utilizadas pelas forças policiais para tirar vidas de pretos e pretas nas periferias do Brasil e dos Estados Unidos (muito provavelmente a fabricante das armas utilizadas na Chacina do Cabula). O que será que o PSol daria em troca à empresa Taurus, caso ganhasse as eleições? Certamente, algo que tornaria ainda pior o bem viver nas periferias.

Vejamos a Operação Lava-Jato, por exemplo, que já nos fornece dados bem interessantes para mostrar como é lucrativo financiar campanhas eleitorais. As empreiteiras doaram 270 milhões de reais às campanhas eleitorais de 2014, como dito anteriormente, mas já receberam do Estado, pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do PT, um montante que ultrapassa dezenas de bilhões de reais em lucro, tudo isto misturado a esquemas sujos de corrupção e lavagem de dinheiro. Imagine então o que deve estar por trás do romance entre a indústria da carne/pecuária e a gestão do Estado brasileiro! O que acha?

Este jogo de cartas marcadas não termina apenas com a carne estragada na sua mesa. Há outro lado da moeda que é massivamente invisibilizado pela grande mídia e que precisa ser divulgado em todos os veículos de comunicação alternativos, como neste jornal anarquista que abre este plebeu espaço para leitores e leitoras como eu escaldar o plantão. Precisamos falar sobre o campesinato e meio ambiente!

O conluio entre Estado e indústria da carne/pecuária apoia um sistema produtivo altamente danoso para o meio ambiente. Para o leitor ter uma breve noção, dos 850 mil hectares do território brasileiro, mais de 200 milhões são ocupados por pastos para a criação extensiva de gado, distribuídos em grandes latifúndios concentradores de riqueza. A maioria do desmatamento das florestas no país é realizada para a abertura de grandes pastos, que emprega uma determinada quantidade de mão de obra no período de implantação (corte de árvores, queima do pasto sujo, instalação de currais, cercas etc.) e que depois é posta para a rua. A relação de empregados por área de pasto na pecuária é irrisória!

As relações entre latifundiários da pecuária e os povos do campo não mudaram muito desde o período colonial. A violência contra os campesinos é refletida na medalha de ouro que o Brasil ganha com muito mérito em assassinatos de camponeses e ambientalistas em conflitos territoriais. Segundo a organização Global Witness (acesse aqui), da Inglaterra, das 185 pessoas assassinadas nestes tipos de conflito em 16 países no ano de 2015, quase 30% (cerca de 50 pessoas) foram mortas no Brasil.

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Há outra medalha conquistada com primor que está estampada no peito da indústria da carne: segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a pecuária é a indústria campeã de trabalho escravo no país, sendo responsável por quase 70% dos flagrantes de escravidão, todos incidindo sobre os povos do campo, principalmente na região Norte do país. Muitos trabalhadores encontrados nesta situação executam suas tarefas em condições extremamente precárias, dormindo em “colocações” (em alusão às precárias instalações dos soldados da borracha na Amazônia) que mais se parecem senzalas, sem camas, colchões ou sanit 29137ários, fazendo refeições de restos estragados de comida, sem garantia de direitos trabalhistas e, ainda por cima, tendo que pagar com parte de seus salários pela degradante hospedagem e alimentação oferecidas na fazenda. Por outro lado, à vida do boi (enquanto não chega a hora do cruel abate) são dedicadas consultas médicas, vacinas, rações turbinadas, água limpa, manutenção de currais etc. Ambos, gente e boi, são tratados com um único propósito: o lucro. E onde há lucro não há justiça. Ou se resiste ou se aguarda o abate.

É importante frisar que quando falo de campesinato neste texto, incluo pequenos agricultores, comunidades tradicionais, como quilombolas, indígenas, fundos e feixes de pasto, ribeirinhos, pescadores artesanais, marisqueiras, jangadeiros, seringueiros, quebradeiras de coco babaçu etc. São estes povos do campo, são estas comunidades tradicionais que, por mais que muitos não acreditem, seguram grande parte da biodiversidade brasileira ainda viva. Prova disto está na região no Brasil apelidada de arco de fogo ou arco do desmatamento, uma faixa de formato semi-circular envolvendo ao Sul o núcleo da Amazônia brasileira, onde há os maiores índices de desmatamento no Brasil, concentrando quase 80% de todo o desmatamento da Amazônia. Vejamos o caso...

Historicamente, foram muitas as políticas públicas que incentivaram a expansão das fronteiras agropecuárias para o interior da Amazônia. Tais políticas tornaram esta região, hoje chamada de arco do desmatamento, fortemente assediada por pecuaristas, sojeiros e empreiteiros, principalmente após a construção de grandes rodovias para transporte de insumos ou escoamento da produção agropecuária, como as grandes BRs financiadas pela ditadura militar na década de 1960 e pelo PAC I e II dos governos do PT (projeto que o Temer continua tocando igualzinho o governo anterior... aliás, são do mesmo governo, a mesma chapa... fiquei confuso).

No entanto, há também logo adiante a este arco uma espécie de freio “invisível” à expansão do desmatamento. Ao contrário do que muitos “ambientalistas” pensam, não há duendes ou elfos saltitando pelo bosque com a camisa do Greenpeace distribuindo “gratidão” e “salvem as baleias”, tocando magicamente os corações dos pecuaristas, impedindo a expansão do  grande business na Amazônia com palavras de afeto. AmazoniaO que há são inúmeras Terras Indígenas, territórios tradicionais ou unidades de conservação repletas de povos da floresta que fazem das tripas coração, de suas flechas e espingardas o último suspiro, para resistir e defender seus espaços de viver, seus laços com a terra, defender a saúde e a vida de seus entes queridos, de suas comunidades (ver no mapa o cinturão de Terras Indígenas e unidades de conservação freando a mancha rosada que forma o arco do desmatamento).

Parece ter havido uma espécie de paralisia da maioria dos movimentos/instituições ditas “ambientalistas” (umas até com nome de seringueiro), que preferiu estacionar em seus confortáveis lugares de ignorância, sustentados e protegidos por hegemônicos ideários colonizadores, muitas vezes copiados, recopiados e multiplicados exaustivamente pela Academia. Quando pensam em meio ambiente, se atinam logo a vomitar nomes científicos de plantas, vertebrados e invertebrados, fungos e bactérias, esquecendo quase sempre das pessoas. Tais ambientalistas (reiterando o meu asco ao termo) possuem afeição quase doentia por espécies ameaçadas, e quanto mais ameaçadas forem, maior a felicidade de suas organizações, pois maiores serão as chances de captar recursos para o funcionamento de seus projetos (e tirar boa parte da grana para o serviço “administrativo” da empresa). Tais ambientalistas propagam termos violentos e colonizadores como “mata virgem”, “mata intocada”, “áreas de uso restrito”, “floresta primária” ou, o que é pior, “selva”, como se houvesse em qualquer canto deste mundo uma floresta que não tenha sido manejada por alguma comunidade tradicional, como se a biodiversidade não fosse produto também de milhares de anos de indução através de culturas humanas altamente complexas e não atrasadas ou “selvagens”.

Retornando à pecuária, tais ambientalistas até engrossam as fileiras das campanhas contra o desmatamento, contra a expansão da pecuária, mas os seus argumentos estão geralmente centrados na salvaguarda de espécies não humanas, como mamíferos, pássaros, peixes, répteis, o minhocuçu etc. Pergunto-me se os pecuaristas, repentinamente, abandonassem a Amazônia. Tais ambientalistas seriam os primeiros, talvez, a engendrar os seus esforços para retirar as populações humanas de seus territórios a fim de restabelecer as suas míticas “matas virgens”.

RetirantesOutro enorme problema da pecuária é que com a ocupação de grandes latifúndios para a criação extensiva do gado, que como dito não gera quase nenhum emprego, há um deslocamento absurdo de famílias das zonas rurais para as grandes cidades. Aos urbanóides assolados pela fobópole, isto é visto como uma forte ameaça, pois professam que a migração dos povos do campo para a cidade agravarão os processos de favelização e o aumento dos índices de violência. Poucos serão aqueles que se preocuparão com a diminuição das culturas agrícolas tradicionais, que põem à mesa mais de 70% dos produtos de nossa dieta brasileira. Como serão pouquíssimos, quase raros, aqueles que se colocarão em lugar de empatia e solidariedade àqueles e àquelas que saíram de seus territórios tradicionais, locais onde enterraram seus pais, onde criaram seus filhos, onde aprenderam a nadar, a plantar, a colher, onde namoraram pela primeira vez, onde cada árvore, cada morro ou cada rio tinha um nome, onde cada entidade tinha uma morada. Estes raros conseguem imaginar o desespero de uma família tradicional ao aportar numa cidade grande, onde a terra foi substituída por concreto, os rios viraram esgotos, os morros viraram prédios e a mandioca nasce em isopores nos supermercados. Triste é saber também que, com a desestruturação desses povos tradicionais, perderemos também uma forte cultura comunal, de partilha, cuidado coletivo e solidariedade.

Não há como, ao se recapitular a História do Brasil (ou de qualquer outro lugar do mundo), acreditar que o Estado está aí para garantir direitos dos povos campesinos e não para proteger o Capital. Adicionado aos séculos de escravidão indígena e preta e à devastação dos ambientais naturais desde 1.500 no Brasil, gostaria de citar alguns fatos que afetaram diretamente os povos do campo e seus territórios em tempos recentes, mostrando que a divisão entre partidos de esquerda e de direita é meramente fruto de uma fantasia alieanda. A única divisão que há é entre os de cima e os de baixo.

Em 2004, houve uma Ação de Inconstitucionalidade (Nº 3239/2004) que contestava o poder de autoatribuição às comunidades quilombolas para identificar e caracterizar suas próprias terras. Esta Ação foi movida pelo partido dos Democratas (DEM), que teve sua campanha eleitoral financiada pela JBS. Há também a PEC 215/2012 que pretendia transferir para Charge_latifundioo Congresso Nacional a responsabilidade de aprovar a demarcação de terras indígenas e titulação de territórios quilombolas, ou seja, os processos parariam para sempre na burocracia da mais alta corte da politicagem. Esta PEC foi de autoria do PSDB, partido financiado pela JBS. Vamos relembrar também a PEC 71/2011 que dá direito à indenização pelas benfeitorias e também pela terra nua a "proprietários" de imóveis dentro de terras indígenas, ou seja, o Estado usaria dinheiro público para pagar aos ditos proprietários por terras que não são suas, mas que foram historicamente tomadas à força de comunidades originárias. A autoria desta PEC foi do PT, partido que mais recebeu recurso da JBS. Poderia citar páginas de absurdos como este, mas já dá para notar nestes pequenos exemplos que o interesse maior dos partidos é retribuir o “bem” que a indústria da carne trouxe aos cofres de suas facções. Querem mais?

Lembram da Kátia Abreu, famosa “Rainha Motosserra”, desmatadora voraz, latifundiária violenta e pecuarista? Ela, que chegou a dizer na mídia _95047887_hi037657424que "não existe mais latifúndio no país", foi nomeada a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento durante o governo Dilma (PT). Com o governo Temer (PMDB), quem assumiu o lugar da Kátia Abreu foi o Blairo Maggi, conhecido “Rei da Soja”, também latifundiário e desmatador voraz. Estima-se que ele seja o responsável por metade dos desmatamentos da Amazônia entre 2003 e 2004. Seja de direita ou de esquerda, qualquer partido que tenha interesse em ganhar as eleições deverá flertar com a família real, com as rainhas e "reis do agronegócio" (ouça esta linda canção aqui).

Enfim, graves sãos os problemas gerados pela indústria bilionária da pecuária. Este modelo de uso e ocupação da terra, este modelo agrário de concentração de terras, esta violência contra os povos e comunidades tradicionais, esta destruição em massa dos recursos naturais, são todos parte de um grande modelo organizativo, onde o Estado (legislativo, executivo e judiciário), partidos, latifundiários e empresários estão numa mesma mesa de negociação, orquestrando os próximos passos de um genocídio programado dos povos do campo.

Este é o Estado e o seu papel histórico, já nos disse Kropotkin. Que cada movimento campesino se fortaleça na autonomia, que se articule em rede independente e reaja. Que cada comunidade fragmentada pela indústria da carne ou do agronegócio rebrote tal qual maniva, fortalecendo suas raízes até em terra beijada pelo fogo. Não adianta gritar #Foratemer, não adianta cantar #Voltadilma, #Voltalula ou #Salvem-as-baleias. São gritos perdidos no circo da ilusão. A cada hashtag, a cada voto, um coração campesino para de bater e uma carne podre deita à sua mesa.

Por uma Ecologia da Liberdade, por uma organização campesina autônoma e combativa.

 Curumim

Protesto-indigena



Memória Anarquista - Revista UTOPIA

3 meses, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

Utopia

" Iniciamos, hoje, uma Utopia. Não uma Utopia irrealizável, impossível, como querem muitos, mas uma Utopia real, concreta, possível, ao alcance da mão.
Nossa função e objetivo maior serão, aqui, discutir as grandes questões do anarquismo que são, em última análise, as grandes questões de todos os que habitamos este planeta.
E, sob essa ótica, discutir profundamente as sociedades - que construímos, os sistemas - que nos oprimem, os homens - que nos governam, as ciências - que nos ditam suas leis, as juriprudências - que definem nosso comportamento, a educação - que nos condiciona e normaliza, a propriedade privada - que nos torna egoístas e selvagens, as religiões - que nos fazem crer no inconcebível, o trabalho - que nos toma a vida, o estado - que nos vampirza e o outro - a quem amamos e odiamos e que nos ama e nos odeia.
Aqui estamos, enfim, para discutir a vida. É essa a nossa função e a isso viemos. Queremos, assim, mostrar a todos que o anarquismo não é uma hidra de mil cabeças, mas sim um conjunto ordenado de concepções, de ideias e de práticas que contribuem decisivamente para melhor compreender os grandes problemas que todos nós ajudamos a construir e com os quais agora nos defrontramos.

Está aberta a discussão "

Editorial da revista Utopia, primavera de 1988.

Clique na imagem faça o download desta edição.

 



Do Amor Libertário

3 meses, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

Por Margareth Rago

AmorsubQuando, em 1980, fui pesquisar o tema do amor livre na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, encontrei a seguinte referência no fichário: “amor livre – vide prostituição”. Estran  ha correlação que, contudo, revela uma concepção muito difundida no censo comu  m, em geral, referente à mulher e não ao homem. Todavia, isto não merece maiores comentários, no final dos anos noventa. O que gostaria de fazer é trazer uma outra questão sobre o tema. Comumente, ao estudar anarquismo, ainda ouço a seguinte exclamação, quando se trata de falar do amor livre: “Os anarquistas pregavam, mas não praticavam. Eram todos monogâmicos”. Esta afirmação me faz pensar se para se praticar o amor livre seria preciso relacionar-se com muita gente. Confesso que não tenho a resposta definitiva.

A redescoberta do tema do amor livre, juntamente com todas as propostas libertárias de organização social, ocorre, aliás, em meados dos anos setenta, quando se vivia uma profunda critica ao autoritarismo dominante no país, ao mesmo tempo em que se processava uma forte modernização das relações de gênero. O feminismo e o movimento gay levantavam suas bandeiras, soavam os ecos do movimento hippie, da contra-cultura, da revolução sexual dos anos sessenta. Na novela da televisão, um casal praticava a “amizade colorida”.

É óbvio que, nesse contexto, o “amor livre” proposto pelos anarquistas foi imediatamente associado àquela forma de relacionamento amplamente divulgada pelos meios de comunicação. Contudo, uma leitura das fontes primárias parece indicar outras direções, mais interessantes, creio eu, de ser ler a interpretação libertária das relações amorosas, muitas décadas atrás.

Acima de tudo, parece-me que nos textos dos velhos militantes e nas páginas amareladas da imprensa anarquista dos inícios do século, está sendo colocada menos a proposta de variação de parceiros, do que a crítica à institucionalização dos sentimentos em formas rígidas e envelhecidas. Um questionamento da disciplinarização do amor e do sexo que vivia, então, a sociedade vitoriana, no Brasil e em outras partes do mundo, com a ascensão do poder médico. Já dizia a libertária mineira Maria Lacerda de Moura, criticando os bolcheviques, que “a vida não cabe dentro de um partido”.

Hoje que vivemos amplamente as “descontruções”, num momento pós-Foucault em que o conceito de “dispositivo da sexualidade” permitiu perceber as estreitas codificações das relações sexuais e “despervertizar o sexo”, é inevitável olharmos para os libertários que um século atrás faziam a crítica da “disciplina do amor”. Emma Goldman, nos Estados Unidos, questionava o mito da virgindade obrigatória da mulher, a maternidade também obrigatória porque fundamentada no discurso médico sobre a essência feminina, o casamento monogâmico eterno, enquanto Maria Lacerda perguntava se a mulher deveria ser considerada “degenerada” porque reivindicava prazer sexual. (Veja-se a respeito "A Mulher é uma degenerada?", título do seu livro publicado nos anos vinte). Como boas anarquistas, ambas defendiam o divorcio e insurgiam-se radicalmente contra a submissão sexual da mulher. A espanhola Frederica Montseny, por seu lado, defendia a legalização do aborto, prática que levou a cabo durante sua participação no Ministério da Saúde na Revolução Espanhola, entre 1936-39.

Aquarela_passarosEmbora ainda estejamos lutando pela descriminalização do aborto, ou pela aceitação do homoerotismo na sociedade, é claro que essas demandas já encontram um campo desbravado e plenamente configurado para serem debatidas publicamente e incorporadas, ao menos parcialmente, com amplas adesões. A sociedade se tornou, de certo modo, mais libertária e feminista. Há uma aceitação mais aberta das relações sexuais não institucionalizadas, muito embora se observe nos jovens uma tendência ao casamento nas formas tradicionais.

Não importa, parece-me que o mundo pós-moderno deve conviver com as diferenças, o que implica a coexistência de velhas e novas formas. Inevitavelmente, estamos mais abertos de modo geral para viver plenamente a sexualidade, o que não significa contudo que os problemas tenham sido resolvidos, pois outros se colocaram. É difícil compreender, por exemplo, por que a Revolução sexual dos anos 60 não acabou com a prostituição, por que depois de toda a crítica, os homens, ou melhor, vários continuam casando-se com a figura da “mãe”, enquanto se realizam sexualmente com a “degenerada nata” do Dr. Lombroso. Há quem diga que, na verdade, a modernização das relações de gênero não significou o fim das desigualdades sexuais e a construção do amor libertário. É bem possível, mas ainda assim, nós mulheres conseguimos muito mais espaço, inclusive nas formas de manifestação do desejo. Os artigos da imprensa discutem abertamente os temas que, no passado, só se encontravam na imprensa libertária, e certamente colocados de maneira diferente.

Em suma, não há duvida de que os anarquistas abriram as portas, já no século passado, para um repensar das práticas sexuais e das concepções da sexualidade que informavam o imaginário social. Discutiram questões fundamentais como o casamento monogâmico, o divorcio, a maternidade obrigatória, o aborto, a prostituição e propuseram o amor livre e o direito ao prazer. Problematizaram um campo de Aquarela-de-dois-papagaios-59322836temas-tabus que, naquele momento, estavam passando das mãos da Igreja para o poder médico, sem sofrer grandes alterações em sua normatividade, fenômeno que tem sido pouco discutido e, aliás, notado. Quando os médicos repunham a questão da sexualidade em termos científicos, preservando e até acentuando todos os preconceitos e concepções sexuais repressivas, construindo conceitos como o das “perversões sexuais”, os anarquistas defendiam o “amor livre”, isto é, a união entre duas pessoas baseadas exclusivamente no desejo. Ao reivindicar a publicização do privado, o que afeta certamente as questões da sexualidade, não há dúvida de que o feminismo contemporâneo retomou antigas lutas colocadas pelas/os libertárias/os, querendo ou não.

Mas, se hoje as sexualidades afloram em sua multiplicidade, ao desfazerem-se as tradicionais barreiras imaginarias de codificação dos sentimentos e desejos, não há duvida de que o mundo se complicou. Nesse sentido, está difícil acrescentar muita coisa ao debate. De um lado, as relações não estão mais livres, leves e soltas, como nos apresenta o filme “Denise está chamando”, ao focalizar o tema do amor virtual. De outro, a juventude atual é muito mais livre de que a das gerações passadas, enquanto que o corpo e o sexo foram incorporados como dimensões fundamentais da vida emocional e psíquica. Tendências contraditórias, opostas, multifacetadas. Parece que as cartas estão todas colocadas e embaralhadas. Da minha parte, vou ficar com o poeta, cantando “qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor valerá”.

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Seduzido pela imagem da realidade

3 meses, por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda

Por CrimethInc

Dias de Guerra, Noites de Amor

eles o têm na palma da sua mão.

  Quando eu olhava revistas quando eu era pequeno, costumava pensar que deveria existir em algum lugar um mundo mágico onde tudo parecia ― e era ― perfeito. Eu via imagens disto nessas páginas, o ar enevoado de salas pouco iluminadas, cheio de drama, onde as modelos relaxavam em roupas de marca. É  que a emoção e a aventura estão, eu pensava, no mundo onde toda sala é impecavelmente decorada e o guarda-roupa de toda mulher é escolhido e combinado com ousadia e elegância. Eu resolvi ter minha própria vida de aventuras, e comecei a procurar imediatamente por essas salas e essas mulheres. E embora eu tenha descoberto que o romance e a emoção raramente andam lado a lado com suas imagens que nos são presenteadas ― normalmente o oposto é que é verdade, encontramos a aventura exatamente onde não há tempo ou energia para manter as aparências ― às vezes eu ainda me pego pensando que tudo seria perfeito se eu morasse naquela pitoresca cabana de madeira com tapetes combinando.

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  Por que pensamos tanto nessas imagens hoje, ao invés de nos concentrarmos na realidade, em nossas próprias vidas e emoções? Uma das razões pelas quais imagens ganharam tanta importância nesta sociedade é que, ao contrário da atividade, imagens são fáceis de vender. Publicidade e marketing, que são feitos para dar valores simbólicos a produtos para atrair consumidorestransformaram nossa cultura. Há gerações as corporações têm disseminado propaganda projetada para fazer-nos acreditar nos poderes mágicos de seus produtos: desodorante lhe dá popularidade, refrigerante dá juventude e energia, calças jeans lhe deixam sexy.   O que quer que estejamos procurando, nós tendemos a perseguir nossos desejos indo atrás de imagens: símbolos das coisas que desejamos. Compramos jaquetas de couro quando queremos perigo e rebeldia. Compramos carros rápidos não para dirigir a altas velocidades, mas para recapturar nossa juventude perdida. Quando queremos viver num mundo diferente, compramos panfletos políticos e adesivos de pára-choques. De alguma forma presumimos que possuir todos os acessórios certos nos dará as vidas perfeitas. E enquanto construímos nossas vidas, geralmente o fazemos de acordo com uma imagem, um padrão que nos foi oferecido: hippie, empresário, dona-de-casa, punk.

 Em nossos empregos, trocamos nosso tempo, energia e criatividade pela capacidade de comprar estes símbolos ― e nós os continuamos comprando, pois é claro que nenhuma quantidade de cigarros jamais dará sofisticação a alguém. Ao invés de satisfazer nossas necessidades, esses produtos as multiplicam: pois para adquirí-los, devemos vender nossas vidas. E nós continuamos repetindo, por não saber outra forma, esperando que o novo produto (livros de auto-ajuda, discos de punk rock, aquela cabana de férias com tapetes combinando) será aquele que deixará tudo certo.

 Somos facilmente persuadidos a perseguir estas imagens pois é muito mais fácil mudar o cenário à sua volta do que mudar sua própria vida. Quantos problemas, quantos riscos você evitaria se você pudesse tornar sua vida perfeita simplesmente colecionando os acessórios corretos! Sem precisar participar. A imagem vem para incorporar tudo aquilo que você deseja, e você gasta todo o seuClube_da_luta tempo e energia tentando acertar os detalhes (o boêmio tenta encontrar a perfeita boina preta e os perfeitos saraus para participar ― o universitário têm que ser visto com os amigos certos, nas festas certas, bebendo a cerveja certa e usando a camisa casual correta) ao invés de tentarem perseguir seus desejos pessoalmente ― pois é mais fácil se identificar com uma imagem pré-fabricada do que identificar exatamente o que você quer da vida. Mas se você realmente quer aventura, uma jaqueta australiana de caça não será suficiente ― e se você quer romance de verdade, jantar e cinema com a garota mais popular da sua escola podem não ser o bastante.

  Fascinados como somos por imagens, nossos valores passaram a girar em torno de um mundo que nunca podemos vivenciar de verdade. Não há como entrar nas páginas de uma revista, não há como ser o arquétipo punk ou o executivo perfeito. Estamos "presos" aqui fora no mundo real, para sempre. E mesmo assim continuamos buscando por vida em fotografias, em modas, e espetáculos de todos os tipos, qualquer coisa para colecionar ou assistir ― ao invés de fazer.

  Procuramos por vida na imagem da vida.

 

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