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Carne Fraca, Campesinato, #ForaTemer e #SalvemAsBaleias - dissolvendo dicotomias

16 de Julho de 2017, 22:06 , por Rodrigo Souto - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Opera-18A mídia tem explorado exaustivamente o escândalo da Operação CARNE FRACA, deflagrada pela Polícia Federal. Neste grande esquemão, servidores do Ministério da Agricultura recebiam propina para fazer vistas grossas à venda de carne fora dos padrões exigidos para comercialização, como adulteração no peso por adição de água, a venda de produtos estragados disfarçadas com substâncias químicas e o reaproveitamento de carnes podres há mais de três meses para a produção de embutidos, como salsichas, hambúrgueres e linguiças. Houve até um lote de toneladas, contaminado com bactérias Salmonella que foi devolvido pela Itália e, quando de volta ao Brasil, virou motivo de debate entre os funcionários dos frigoríficos, que buscavam a melhor forma de reaproveita-lo no mercado nacional.

Na Carne Fraca, frigoríficos muitos bem conhecidos da população brasileira foram investigados, como os das empresas BRF- Brasil Foods S.A. (proprietária das marcas Perdigão e Sadia) e a gigante JBS S/A (proprietária da Friboi, Seara e Swift). A relação corrupta entre a indústria da carne e o Ministério da Agricultura não é de se espantar, basta lembrar que a JBS S./A. foi, em 2014, a maior doadora de financiamento para as campanhas eleitorais dos maiores partidos (PT, PSDB, PMDB etc.): 253 milhões de reais (dados do TSE, acesse aqui)! Somos tão acostumados a ouvir as palavras milhões e bilhões em esquemas de corrupção, que acabamos perdendo a noção do quanto isto representa. Para ter ideia, com este recurso doado só pela JBS S./A. para financiar campanhas partidárias e te enrolar por um voto, compraríamos 30 quilos de feijão para cada uma das quase um milhão de famílias de Salvador.

É importante demonstrar o poder econômico que possui a indústria da carne/pecuária no Brasil. Esta indústria movimenta no país cerca de 7 bilhões por ano e exporta carne para mais de 150 países, sendo o Brasil o maior exportador mundial de carnes com o maior rebanho bovino do mundo. Segundo relatório da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC, acesse aqui), o país abateu mais de 24 milhões de bois e exportou cerca de um milhão e meio de toneladas de carne bovina só em 2016. Não é à toa que depois do escândalo da Carne Fraca, o governo tem concentrado muito mais esforços em não queimar o próprio filme com os outros países compradores da carne nacional do que investigar se houve problemas de saúde relacionados ao consumo de carnes estragadas, por exemplo. Basta ouvir meia hora do programa Voz do Brasil no seu radinho de pilha que não demorará a perceber o que estou falando. Mas prepare o estômago para engolir informação estragada!

O poder político da indústria da carne/pecuária também é assustador. Para bater o financiamento privado de campanhas feito somente pela JBS S/A, precisamos juntar o montante de dinheiro doado por todas as grandes empreiteiras/construtoras investigadas na Operação Lava-Jato (OAS, Queiroz Galvão, Odebrecht, UTC Engenharia e Camargo Correia), que doaram juntas cerca de 270 milhões de reais (dados do TSE, acesse aqui). A JBS S./A. foi, por exemplo, a maior financiadora de 21 dos 28 partidos políticos com representação na Câmara dos Deputados Federais, com maiores volumes de doação para o PT, PMDB e PSDB!

Mas qual o interesse dessas grandes empresas em financiar campanhas eleitorais? Isso é fácil de deduzir. Imagine que você é gerente de um grande negócio. Você doa rios de dinheiro para todos os partidos políticos que suspeita ter chances de ganhar as eleições. Você pouco se importa se está financiando partidos que até se dizem rivais, como o PT e o PSDB. O que interessa para você é garantir que os partidos eleitos tenham sido financiados por sua empresa. Ao final da eleição, se foi a sua empresa quem financiou o/a presidente (e o vice!) do país e também a maioria dos deputados federais e os demais cargos eleitos, você terá ao final da eleição toda a máquina do Estado em suas mãos. Você ganhará a maioria das grandes licitações públicas superfaturadas, estará inserido nos maiores esquemas rentáveis de corrupção e lavagem de dinheiro, terá todas as legislações necessárias ao seu lucro aprovadas, todas as estruturas executivas que possam barrar o seu caminho serão sucateadas (veja sobre a tentativa de extinção da CGPEG do IBAMA/RJ aqui e participe do abaixo assinado), todas as licenças ambientais (im)possíveis serão emitidas e por aí vai...

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E quem não aceita financiamento privado vira café com leite na brincadeira,  jamais vencerá coisa alguma e ficará brincando de PSol no playground, tomando Ninho Soleil (tem de maçã e de banana) e soltando nota na internet. O PSol, aliás, já andou recebendo para a campanha de Luciana Genro uma "doação" da empresa Taurus, fabricante das pistolas 380, .40 e2013125_37833 metralhadoras, utilizadas pelas forças policiais para tirar vidas de pretos e pretas nas periferias do Brasil e dos Estados Unidos (muito provavelmente a fabricante das armas utilizadas na Chacina do Cabula). O que será que o PSol daria em troca à empresa Taurus, caso ganhasse as eleições? Certamente, algo que tornaria ainda pior o bem viver nas periferias.

Vejamos a Operação Lava-Jato, por exemplo, que já nos fornece dados bem interessantes para mostrar como é lucrativo financiar campanhas eleitorais. As empreiteiras doaram 270 milhões de reais às campanhas eleitorais de 2014, como dito anteriormente, mas já receberam do Estado, pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do PT, um montante que ultrapassa dezenas de bilhões de reais em lucro, tudo isto misturado a esquemas sujos de corrupção e lavagem de dinheiro. Imagine então o que deve estar por trás do romance entre a indústria da carne/pecuária e a gestão do Estado brasileiro! O que acha?

Este jogo de cartas marcadas não termina apenas com a carne estragada na sua mesa. Há outro lado da moeda que é massivamente invisibilizado pela grande mídia e que precisa ser divulgado em todos os veículos de comunicação alternativos, como neste jornal anarquista que abre este plebeu espaço para leitores e leitoras como eu escaldar o plantão. Precisamos falar sobre o campesinato e meio ambiente!

O conluio entre Estado e indústria da carne/pecuária apoia um sistema produtivo altamente danoso para o meio ambiente. Para o leitor ter uma breve noção, dos 850 mil hectares do território brasileiro, mais de 200 milhões são ocupados por pastos para a criação extensiva de gado, distribuídos em grandes latifúndios concentradores de riqueza. A maioria do desmatamento das florestas no país é realizada para a abertura de grandes pastos, que emprega uma determinada quantidade de mão de obra no período de implantação (corte de árvores, queima do pasto sujo, instalação de currais, cercas etc.) e que depois é posta para a rua. A relação de empregados por área de pasto na pecuária é irrisória!

As relações entre latifundiários da pecuária e os povos do campo não mudaram muito desde o período colonial. A violência contra os campesinos é refletida na medalha de ouro que o Brasil ganha com muito mérito em assassinatos de camponeses e ambientalistas em conflitos territoriais. Segundo a organização Global Witness (acesse aqui), da Inglaterra, das 185 pessoas assassinadas nestes tipos de conflito em 16 países no ano de 2015, quase 30% (cerca de 50 pessoas) foram mortas no Brasil.

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Há outra medalha conquistada com primor que está estampada no peito da indústria da carne: segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a pecuária é a indústria campeã de trabalho escravo no país, sendo responsável por quase 70% dos flagrantes de escravidão, todos incidindo sobre os povos do campo, principalmente na região Norte do país. Muitos trabalhadores encontrados nesta situação executam suas tarefas em condições extremamente precárias, dormindo em “colocações” (em alusão às precárias instalações dos soldados da borracha na Amazônia) que mais se parecem senzalas, sem camas, colchões ou sanit 29137ários, fazendo refeições de restos estragados de comida, sem garantia de direitos trabalhistas e, ainda por cima, tendo que pagar com parte de seus salários pela degradante hospedagem e alimentação oferecidas na fazenda. Por outro lado, à vida do boi (enquanto não chega a hora do cruel abate) são dedicadas consultas médicas, vacinas, rações turbinadas, água limpa, manutenção de currais etc. Ambos, gente e boi, são tratados com um único propósito: o lucro. E onde há lucro não há justiça. Ou se resiste ou se aguarda o abate.

É importante frisar que quando falo de campesinato neste texto, incluo pequenos agricultores, comunidades tradicionais, como quilombolas, indígenas, fundos e feixes de pasto, ribeirinhos, pescadores artesanais, marisqueiras, jangadeiros, seringueiros, quebradeiras de coco babaçu etc. São estes povos do campo, são estas comunidades tradicionais que, por mais que muitos não acreditem, seguram grande parte da biodiversidade brasileira ainda viva. Prova disto está na região no Brasil apelidada de arco de fogo ou arco do desmatamento, uma faixa de formato semi-circular envolvendo ao Sul o núcleo da Amazônia brasileira, onde há os maiores índices de desmatamento no Brasil, concentrando quase 80% de todo o desmatamento da Amazônia. Vejamos o caso...

Historicamente, foram muitas as políticas públicas que incentivaram a expansão das fronteiras agropecuárias para o interior da Amazônia. Tais políticas tornaram esta região, hoje chamada de arco do desmatamento, fortemente assediada por pecuaristas, sojeiros e empreiteiros, principalmente após a construção de grandes rodovias para transporte de insumos ou escoamento da produção agropecuária, como as grandes BRs financiadas pela ditadura militar na década de 1960 e pelo PAC I e II dos governos do PT (projeto que o Temer continua tocando igualzinho o governo anterior... aliás, são do mesmo governo, a mesma chapa... fiquei confuso).

No entanto, há também logo adiante a este arco uma espécie de freio “invisível” à expansão do desmatamento. Ao contrário do que muitos “ambientalistas” pensam, não há duendes ou elfos saltitando pelo bosque com a camisa do Greenpeace distribuindo “gratidão” e “salvem as baleias”, tocando magicamente os corações dos pecuaristas, impedindo a expansão do  grande business na Amazônia com palavras de afeto. AmazoniaO que há são inúmeras Terras Indígenas, territórios tradicionais ou unidades de conservação repletas de povos da floresta que fazem das tripas coração, de suas flechas e espingardas o último suspiro, para resistir e defender seus espaços de viver, seus laços com a terra, defender a saúde e a vida de seus entes queridos, de suas comunidades (ver no mapa o cinturão de Terras Indígenas e unidades de conservação freando a mancha rosada que forma o arco do desmatamento).

Parece ter havido uma espécie de paralisia da maioria dos movimentos/instituições ditas “ambientalistas” (umas até com nome de seringueiro), que preferiu estacionar em seus confortáveis lugares de ignorância, sustentados e protegidos por hegemônicos ideários colonizadores, muitas vezes copiados, recopiados e multiplicados exaustivamente pela Academia. Quando pensam em meio ambiente, se atinam logo a vomitar nomes científicos de plantas, vertebrados e invertebrados, fungos e bactérias, esquecendo quase sempre das pessoas. Tais ambientalistas (reiterando o meu asco ao termo) possuem afeição quase doentia por espécies ameaçadas, e quanto mais ameaçadas forem, maior a felicidade de suas organizações, pois maiores serão as chances de captar recursos para o funcionamento de seus projetos (e tirar boa parte da grana para o serviço “administrativo” da empresa). Tais ambientalistas propagam termos violentos e colonizadores como “mata virgem”, “mata intocada”, “áreas de uso restrito”, “floresta primária” ou, o que é pior, “selva”, como se houvesse em qualquer canto deste mundo uma floresta que não tenha sido manejada por alguma comunidade tradicional, como se a biodiversidade não fosse produto também de milhares de anos de indução através de culturas humanas altamente complexas e não atrasadas ou “selvagens”.

Retornando à pecuária, tais ambientalistas até engrossam as fileiras das campanhas contra o desmatamento, contra a expansão da pecuária, mas os seus argumentos estão geralmente centrados na salvaguarda de espécies não humanas, como mamíferos, pássaros, peixes, répteis, o minhocuçu etc. Pergunto-me se os pecuaristas, repentinamente, abandonassem a Amazônia. Tais ambientalistas seriam os primeiros, talvez, a engendrar os seus esforços para retirar as populações humanas de seus territórios a fim de restabelecer as suas míticas “matas virgens”.

RetirantesOutro enorme problema da pecuária é que com a ocupação de grandes latifúndios para a criação extensiva do gado, que como dito não gera quase nenhum emprego, há um deslocamento absurdo de famílias das zonas rurais para as grandes cidades. Aos urbanóides assolados pela fobópole, isto é visto como uma forte ameaça, pois professam que a migração dos povos do campo para a cidade agravarão os processos de favelização e o aumento dos índices de violência. Poucos serão aqueles que se preocuparão com a diminuição das culturas agrícolas tradicionais, que põem à mesa mais de 70% dos produtos de nossa dieta brasileira. Como serão pouquíssimos, quase raros, aqueles que se colocarão em lugar de empatia e solidariedade àqueles e àquelas que saíram de seus territórios tradicionais, locais onde enterraram seus pais, onde criaram seus filhos, onde aprenderam a nadar, a plantar, a colher, onde namoraram pela primeira vez, onde cada árvore, cada morro ou cada rio tinha um nome, onde cada entidade tinha uma morada. Estes raros conseguem imaginar o desespero de uma família tradicional ao aportar numa cidade grande, onde a terra foi substituída por concreto, os rios viraram esgotos, os morros viraram prédios e a mandioca nasce em isopores nos supermercados. Triste é saber também que, com a desestruturação desses povos tradicionais, perderemos também uma forte cultura comunal, de partilha, cuidado coletivo e solidariedade.

Não há como, ao se recapitular a História do Brasil (ou de qualquer outro lugar do mundo), acreditar que o Estado está aí para garantir direitos dos povos campesinos e não para proteger o Capital. Adicionado aos séculos de escravidão indígena e preta e à devastação dos ambientais naturais desde 1.500 no Brasil, gostaria de citar alguns fatos que afetaram diretamente os povos do campo e seus territórios em tempos recentes, mostrando que a divisão entre partidos de esquerda e de direita é meramente fruto de uma fantasia alieanda. A única divisão que há é entre os de cima e os de baixo.

Em 2004, houve uma Ação de Inconstitucionalidade (Nº 3239/2004) que contestava o poder de autoatribuição às comunidades quilombolas para identificar e caracterizar suas próprias terras. Esta Ação foi movida pelo partido dos Democratas (DEM), que teve sua campanha eleitoral financiada pela JBS. Há também a PEC 215/2012 que pretendia transferir para Charge_latifundioo Congresso Nacional a responsabilidade de aprovar a demarcação de terras indígenas e titulação de territórios quilombolas, ou seja, os processos parariam para sempre na burocracia da mais alta corte da politicagem. Esta PEC foi de autoria do PSDB, partido financiado pela JBS. Vamos relembrar também a PEC 71/2011 que dá direito à indenização pelas benfeitorias e também pela terra nua a "proprietários" de imóveis dentro de terras indígenas, ou seja, o Estado usaria dinheiro público para pagar aos ditos proprietários por terras que não são suas, mas que foram historicamente tomadas à força de comunidades originárias. A autoria desta PEC foi do PT, partido que mais recebeu recurso da JBS. Poderia citar páginas de absurdos como este, mas já dá para notar nestes pequenos exemplos que o interesse maior dos partidos é retribuir o “bem” que a indústria da carne trouxe aos cofres de suas facções. Querem mais?

Lembram da Kátia Abreu, famosa “Rainha Motosserra”, desmatadora voraz, latifundiária violenta e pecuarista? Ela, que chegou a dizer na mídia _95047887_hi037657424que "não existe mais latifúndio no país", foi nomeada a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento durante o governo Dilma (PT). Com o governo Temer (PMDB), quem assumiu o lugar da Kátia Abreu foi o Blairo Maggi, conhecido “Rei da Soja”, também latifundiário e desmatador voraz. Estima-se que ele seja o responsável por metade dos desmatamentos da Amazônia entre 2003 e 2004. Seja de direita ou de esquerda, qualquer partido que tenha interesse em ganhar as eleições deverá flertar com a família real, com as rainhas e "reis do agronegócio" (ouça esta linda canção aqui).

Enfim, graves sãos os problemas gerados pela indústria bilionária da pecuária. Este modelo de uso e ocupação da terra, este modelo agrário de concentração de terras, esta violência contra os povos e comunidades tradicionais, esta destruição em massa dos recursos naturais, são todos parte de um grande modelo organizativo, onde o Estado (legislativo, executivo e judiciário), partidos, latifundiários e empresários estão numa mesma mesa de negociação, orquestrando os próximos passos de um genocídio programado dos povos do campo.

Este é o Estado e o seu papel histórico, já nos disse Kropotkin. Que cada movimento campesino se fortaleça na autonomia, que se articule em rede independente e reaja. Que cada comunidade fragmentada pela indústria da carne ou do agronegócio rebrote tal qual maniva, fortalecendo suas raízes até em terra beijada pelo fogo. Não adianta gritar #Foratemer, não adianta cantar #Voltadilma, #Voltalula ou #Salvem-as-baleias. São gritos perdidos no circo da ilusão. A cada hashtag, a cada voto, um coração campesino para de bater e uma carne podre deita à sua mesa.

Por uma Ecologia da Liberdade, por uma organização campesina autônoma e combativa.

 Curumim

Protesto-indigena


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